Vou começar este texto com uma confissão. Antes de ser mãe, eu olhava para a internet, via aquele monte de mulheres falando sobre maternidade, escrevendo sobre a rotina com os filhos e pensava: “Nossa, virou mãe e agora a personalidade é só isso? Agora virou escritora de maternidade?”
Eu tinha essa crítica no coração. Até que a realidade bateu à porta. Ou melhor, arrombou a porta.
O choque de realidade que é a maternidade é algo que nos desmonta. A minha própria mãe sempre me disse uma frase que ecoa na minha cabeça: “Filha, casar é um divisor de águas. Muda tudo. Mas ter filho… muda tudo de novo.”
E ela tinha razão.
O Casamento, a Maternidade e o “Morrer para Si Mesma”
No casamento, a mudança já é brusca. Você passa a viver com outra pessoa, com outra bagagem, e precisa aprender a ceder. É um exercício diário, e eu diria até teológico, de amor sacrificial. Como autores cristãos e a própria Bíblia nos ensinam, o casamento é uma via de mão dupla, onde um “abre mão” pelo outro para que se tornem uma só carne. Escolhemos fazer coisas que não gostamos ou não estamos acostumadas, simplesmente por amor.
Mas quando o filho chega… Ah, aí a escolha vira necessidade. O bebê depende totalmente de nós. A vida do casal muda, mas a vida da mãe? Essa vira do avesso.
E no meio de fraldas, noites mal dormidas e um amor avassalador, surge uma pergunta silenciosa e perigosa: Onde eu fui parar?
Muitas vezes, esquecemos que não somos apenas mães. Somos esposas, filhas, servas de Deus e… nós mesmas. Eu vivo esse conflito diariamente: tentar me encontrar no meio de tantas demandas.
A Armadilha da “Mulher Maravilha” e a Depressão
Eu tenho um problema sério: eu quero dar conta de tudo.
Quero ser a melhor mãe, a melhor esposa, a melhor filha, a melhor profissional, servir melhor na igreja… E quando não consigo? A frustração vem como um tsunami. Isso não nasceu com a maternidade; é uma raiz antiga.
No passado, enfrentei uma depressão severa desencadeada por um fracasso profissional. Eu me senti culpada porque as coisas não deram certo e eu achava que eu tinha que ser a pessoa que resolvia tudo para que os outros gostassem de mim. Na minha cabeça, ser amada estava condicionado a entregar um “bom trabalho”. Se eu falhava, eu não merecia amor.
Quando a Bebel nasceu e a rotina apertou, comecei a sentir aqueles sinais voltarem. O aperto no peito, a cobrança excessiva. Mas, graças a Deus e à maturidade que Ele tem me dado, percebi os sintomas antes do fundo do poço. Procurei ajuda médica, voltei ao tratamento. A medicina é uma graça comum de Deus para nós.
Mas percebi que o buraco era mais embaixo. O problema não era apenas químico ou emocional; era espiritual.
O Medo da Hipocrisia e a Culpa que Não é Nossa
Eu tenho pavor de hipocrisia. Tenho medo que as pessoas olhem para mim, ou leiam este blog, e pensem: “Nossa, a Eloã fala de Deus, mas olha lá, está ansiosa de novo. Ela fala de fé, mas está deprimida”.
Eu odeio máscaras. Eu quero ser verdadeira. E essa busca pela verdade, às vezes, me faz sentir culpa por coisas que eu nem fiz, ou pelo que acham que eu estou fazendo.
Eu percebi que minha necessidade de controle — de controlar como me veem, de controlar o resultado do meu trabalho, de controlar a criação da minha filha — era, no fundo, uma tentativa de tomar o lugar de Deus.
Eu falava: “Deus, eu não estou sendo boa o suficiente”. Mas o que eu estava dizendo na verdade era: “Deus, o sacrifício de Jesus não é suficiente, eu preciso completar com as minhas obras”. Que loucura, né?
Aprendendo a Soltar (Intencionalmente)
Tenho aprendido, a duras penas, que descansar em Deus é um exercício de fé ativa.
Para alguém controladora como eu, descansar é difícil. Às vezes, eu preciso propositalmente não fazer algo, deixar uma louça na pia ou delegar uma tarefa, só para treinar meu coração de que o mundo não vai acabar se eu não estiver no comando. Quem sustenta o mundo é Ele, não eu.
Recentemente, tive uma crise e precisei ser lembrada disso mais uma vez. Enquanto orava, pedindo a Deus que me fizesse descansar, senti aquela “paz que excede todo o entendimento”. Olhei para o céu e só consegui dizer: “Obrigada, Deus. Obrigada pelo cuidado, mesmo quando eu sou falha”.
O Reencontro: A Antiga Você e a Nova Mulher
Nesse processo de “soltar as rédeas”, algo muito bonito acontece: a gente começa a se reencontrar.
Por muito tempo, eu achei que a maternidade tivesse “aniquilado” a Eloã. Eu sentia falta dela. Mas o que tenho descoberto é que ela não morreu; ela foi transformada.
Hoje, eu olho no espelho e vejo uma nova pessoa, sim. Uma mulher com olheiras mais profundas, mas com um olhar muito mais misericordioso. Uma mulher que conhece suas limitações como nunca, mas que também descobriu uma força que não sabia que possuía.
O erro é tentarmos voltar desesperadamente a ser quem éramos antes dos filhos. Isso é impossível, porque a vida não anda para trás. O convite de Deus não é para um retrocesso, mas para um encontro com essa “nova você” que é, ao mesmo tempo, a mesma. É a mesma essência, mas agora refinada pelo fogo do serviço, da entrega e da Graça.
Você ainda é você. Seus talentos, seus sonhos e sua personalidade continuam aí, mas agora eles servem a um propósito ainda maior. Você não se perdeu no caminho; você está sendo reconstruída.
Um Convite para Você, Mãe
Quero terminar este texto te convidando a tirar a capa de super-heroína e a abraçar essa nova mulher que está nascendo entre uma fralda e outra, entre um projeto e uma oração.
- Sua identidade não é o que você faz: Você não é definida pelo seu sucesso profissional, nem pela limpeza da sua casa, nem mesmo pelo comportamento do seu filho. Sua identidade está em quem Cristo diz que você é: Amada, redimida, filha.
- Não tenha medo da fraqueza: Paulo diz que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. Se você precisa de remédio, tome. Se precisa de terapia, vá. Se precisa chorar, chore. Isso não te faz menos crente, te faz humana.
- Abrace o seu novo “eu”: Não tenha medo de não ser mais a mesma de cinco anos atrás. Alegre-se na mulher que você está se tornando sob o cuidado do Jardineiro.
Que hoje, nós possamos soltar as rédeas (que nunca estiveram de fato nas nossas mãos) e descansar no fato de que Ele cuida do nosso ninho, da nossa história e de quem somos.
Com amor e verdade,
Eloã
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