Quantas vezes você já se pegou preocupada com a alimentação do seu filho? Com a escola que ele frequenta? Com as roupas que ele veste ou com as companhias que ele tem? Como mães, somos programadas para cuidar. Queremos nutrir, proteger e garantir o melhor futuro possível para essas pequenas vidas que Deus colocou em nossas mãos. Mas, no meio da correria entre lancheiras, deveres de casa e tarefas domésticas, muitas vezes negligenciamos a ferramenta mais poderosa que podemos deixar como herança para eles: a oração.
Não estou falando apenas daquela oração decorada antes de comer, ou do “Anjo da Guarda” recitado às pressas com o sono pesando nas pálpebras. Falo de algo mais profundo. Falo de ensinar nossos filhos a orar como quem conversa com o Pai, com reverência, intimidade e verdade.
A realidade, minha amiga, é que muitas de nós travamos nessa hora. Talvez porque nós mesmas não fomos ensinadas. Talvez porque nossa vida de oração esteja empoeirada, limitada a momentos de crise ou desespero. E aqui está o segredo que grandes homens do passado, como John Knox e Thomas Watson, já sabiam e que precisamos resgatar urgentemente: a oração não é um ritual mágico; é o fôlego da alma. E nossos filhos só aprenderão a respirar esse ar se virem seus pulmões — ou melhor, os pulmões da mamãe — cheios dele.
Neste artigo, vamos mergulhar juntas no que significa realmente orar e como podemos usar o modelo que o próprio Jesus nos deu para guiar o coração dos nossos pequenos.
O Espelho da Alma: Eles Estão Olhando
Antes de pensarmos em métodos ou livrinhos coloridos, precisamos encarar uma verdade dura, mas libertadora: nossos filhos aprendem por imitação.
Você pode falar mil vezes sobre a importância de falar com Deus, mas se o seu filho nunca viu você dobrar os joelhos na sala, se ele nunca viu você chorar diante do Senhor ou fechar os olhos em gratidão no meio de uma tarde comum, ele entenderá que a oração é uma formalidade, não uma necessidade.
John Knox, um cristão fervoroso da Escócia antiga, escreveu um tratado belíssimo sobre a oração num momento em que sua vida corria perigo. Ele dizia que a oração é uma “conversa fervorosa e familiar com Deus”. Pense nessas duas palavras: fervorosa e familiar.
Fervorosa porque não é fria, não é mecânica. E familiar porque Deus é Pai. Se queremos ensinar nossos filhos a orar, o primeiro passo é mostrar a eles que Deus não é um “bombeiro” que chamamos apenas quando a casa está pegando fogo. Ele é o Dono da casa, com quem conversamos todos os dias.
A melhor aula de oração que você pode dar é deixar a porta do seu quarto entreaberta enquanto você ora. É deixar seu filho ver que a mamãe, que resolve tudo para todos, também precisa de ajuda e busca essa ajuda no céu.
O Que É Orar, Afinal? (Explicando para os Pequenos)
Quando for explicar ao seu filho o que é oração, esqueça as palavras difíceis. Use o coração.
Baseada nos ensinamentos clássicos, podemos dizer às crianças que orar é “abrir o coração para o Papai do Céu”. É contar para Ele nossas tristezas, pedir ajuda para vencer o mal (inclusive a desobediência) e agradecer pelos presentes que Ele nos dá todos os dias.
John Knox nos lembra que a oração exige fé. Precisamos ensinar às crianças que, embora não vejamos Deus com os olhos do corpo, Ele está ali, ouvindo cada sussurro. É como conversar com o vovô no telefone: você não o vê, mas sabe que ele está lá, ouvindo e amando você.
Mas há um ponto crucial que muitas vezes esquecemos de ensinar: a oração precisa ser sincera. D. Martyn Lloyd-Jones, outro grande mestre que estudou profundamente o Sermão do Monte, alertava muito sobre a hipocrisia. As crianças são detectores de mentira naturais. Precisamos ensiná-las que Deus conhece os segredos do coração. Não adianta falar bonito por fora se, por dentro, estamos com raiva do irmãozinho e não queremos perdoar. Orar é, antes de tudo, ser verdadeiro com Deus.
O Mapa do Tesouro: O Pai Nosso
Muitas mães me perguntam: “Mas por onde eu começo? Eu não sei o que dizer, e meu filho também não sabe.”
A boa notícia é que Jesus sabia que teríamos essa dificuldade. Por isso, em Mateus 6, Ele não apenas mandou orar, Ele nos deu um modelo. O “Pai Nosso” não é uma reza para ser repetida sem pensar, como um papagaio. Ele é um roteiro, um esqueleto que sustenta toda a nossa conversa com Deus.
O puritano Thomas Watson escreveu uma obra magnífica dissecando cada frase dessa oração. Vamos usar a sabedoria dele para ensinar nossos filhos a orar, frase por frase, de um jeito que eles entendam e amem.
1. “Pai nosso, que estás nos céus”
Aqui começa a lição de intimidade e respeito.
Ensine ao seu filho que o Criador de todas as estrelas aceita ser chamado de Pai. Isso traz segurança. Mas, como Watson nos lembra, Ele está “nos céus”. Isso significa que Ele é o Rei.
- Como ensinar: “Filho, Deus é o Papai que te ama mais que tudo, mas Ele também é o Rei do Universo. Quando falamos com Ele, falamos com amor, mas também com muito respeito, sem brincadeiras bobas, porque Ele é Santo.”
2. “Santificado seja o Teu nome”
Muitas vezes, nossas orações (e as das crianças) são uma lista de pedidos de brinquedos. Jesus nos ensina a começar com Deus.
- Como ensinar: Explique que o “Nome” de Deus é quem Ele é. Orar isso é pedir: “Deus, ajude a mim e aos meus amiguinhos a não falarmos coisas feias sobre o Senhor, e a vivermos de um jeito que as pessoas olhem e digam: ‘Uau, como o Deus dessa criança é bom!'”. É colocar a fama de Deus acima da nossa diversão.
3. “Venha o Teu reino”
Aqui ensinamos sobre quem manda. O ser humano, desde pequeno, quer ser rei do próprio nariz. A criança quer mandar na hora de dormir, no que comer, no brinquedo do irmão.
- Como ensinar: Essa é a oração da rendição. É dizer: “Papai do Céu, eu quero que o Senhor mande no meu coração. Eu quero que o Teu jeito de fazer as coisas, que é cheio de amor e justiça, aconteça na minha casa, na minha escola e no meu coração, e não o meu jeito egoísta.”
4. “Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”
Thomas Watson tem uma sacada genial aqui: ele diz que os anjos no céu obedecem a Deus imediatamente e com alegria. Nós, muitas vezes, obedecemos reclamando.
- Como ensinar: “Filho, sabe como os anjos obedecem a Deus rapidinho e felizes? Nós pedimos aqui ajuda para obedecer a Deus (e ao papai e à mamãe) desse mesmo jeito. Sem reclamar, sem demorar. Queremos o que Deus quer, porque o plano Dele é melhor que o nosso.”
5. “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”
Só agora, depois de focarmos em Deus, pedimos coisas para nós. Note que é “pão”, não “banquete”, e é “de cada dia”, não “para o ano todo”. Isso ensina dependência.
- Como ensinar: Mesmo que a despensa esteja cheia, precisamos ensinar que é Deus quem sustenta tudo. Watson diz que o pão sem a bênção de Deus não alimenta a alma. Ensine seu filho a orar: “Senhor, obrigado pela minha comida, pela minha roupa, pela minha caminha. Cuida de mim hoje.” Isso combate o materialismo e a ansiedade no coraçãozinho deles.
6. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos…”
Essa é a parte difícil, não é? Para nós e para eles. As crianças brigam, tomam brinquedos, gritam.
- Como ensinar: Watson explica que o pecado é como uma dívida que não conseguimos pagar. Jesus pagou por nós. Mas ele alerta: quem foi perdoado, perdoa. Se seu filho brigou com o irmão ou com o colega, essa é a hora da oração prática. “Filho, Deus perdoou as coisas erradas que você fez? Sim. Então, precisamos perdoar o fulano agora. Não dá para pedir perdão a Deus guardando raiva no coração.”
7. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”
Aqui reconhecemos nossa fraqueza. Ninguém é forte o suficiente sozinho.
- Como ensinar: É um pedido de proteção não só contra machucados físicos, mas contra o “mal” de desobedecer. “Papai do Céu, não deixa eu ter vontade de fazer coisa errada. E se eu tiver vontade, me ajuda a correr dela. Me protege do mal.”
Dicas Práticas para Mães Reais
Agora que entendemos a estrutura, como colocar isso na rotina sem ser chato ou pesado? Aqui vão algumas sugestões inspiradas na sabedoria desses grandes autores, mas aplicadas à nossa realidade de mãe:
1. A Oração da Palavra
Timothy Keller, um pastor mais recente que bebeu dessa mesma fonte antiga, fala muito sobre orar a Bíblia. Para ensinar nossos filhos a orar, não precisamos inventar frases. Pegue um Salmo (como o Salmo 23) e ore ele com seu filho.
“Senhor, o Senhor é o pastor do Pedrinho. Nada vai faltar para ele. Obrigado por fazer o Pedrinho deitar em pastos verdes…” Isso ensina a criança que a Bíblia é um livro de conversa.
2. Crie Memórias, Não Rituais Vazios
Evite apenas mandar a criança repetir frases que ela não entende. Pergunte: “Filho, o que deixou você triste hoje? Vamos contar para Deus?” ou “O que aconteceu de muito legal? Vamos agradecer?”. John Knox enfatizava que a oração é o derramar das nossas misérias e alegrias diante de Deus. Traga a realidade do dia da criança para a oração.
3. Seja Sincera Sobre Suas Fraquezas
Muitas vezes achamos que precisamos ser “super crentes” na frente dos filhos. Mas Thomas Watson nos lembra que a humildade é essencial. Tudo bem seu filho ver você orando: “Senhor, a mamãe está sem paciência hoje. Me ajuda a ser mais mansa com meus filhos.”
Isso ensina à criança que a mamãe também é pecadora e também precisa da graça de Jesus. Isso gera conexão e mostra que a oração é para gente de verdade.
4. A Persistência (Mesmo Quando Deus Diz “Espere”)
John Knox passou por momentos terríveis onde parecia que Deus não ouvia. Ele ensina que Deus às vezes demora para exercitar a nossa fé. Ensine isso ao seu filho. Se eles pedirem algo e não acontecer, é uma oportunidade de ouro para ensinar: “Filho, Deus ouviu. Mas a resposta Dele agora foi ‘espere’ ou ‘não’, porque Ele sabe o que é melhor, igual a mamãe às vezes diz não para te proteger.”
O Grande Objetivo: Cristo no Centro
Por fim, amigas, precisamos lembrar que o centro da oração não é o nosso conforto, nem o bom comportamento dos nossos filhos. O centro é Cristo.
John Knox era muito firme em dizer que só podemos orar porque temos um Mediador. Não somos dignos de entrar na sala do Rei por nós mesmas. Entramos porque Jesus nos segura pela mão.
Ao ensinar nossos filhos a orar, sempre termine lembrando-os de Jesus. “Nós pedimos isso ‘em nome de Jesus’ porque Ele é o nosso melhor amigo, que morreu e ressuscitou para podermos falar com o Papai do Céu.”
Isso tira o peso das costas da criança (de ter que ser boazinha para Deus ouvir) e coloca a confiança em Jesus.
Minha oração, enquanto escrevo este artigo para vocês aqui no Ninho Sagrado, é que o Senhor desperte em nós, mães, um espírito de oração. Que nossos lares não sejam apenas lugares de comida gostosa e roupa limpa, mas santuários onde o nome de Deus é santificado.
Comece hoje. Não precisa ser perfeito. Não precisa ser longo. Só precisa ser verdadeiro. Dobre seus joelhos, chame seus pequenos e comece a conversa mais importante da vida deles.
Gostou deste conteúdo? No Ninho Sagrado, queremos caminhar com você nessa jornada de fé e maternidade. Compartilhe este artigo com uma amiga que precisa desse encorajamento hoje.
Este artigo foi fundamentado nas obras históricas “Tratado sobre a Oração” de John Knox, “A Oração do Senhor” de Thomas Watson, e “Estudos no Sermão do Monte” de D. Martyn Lloyd-Jones.







